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As Nazi-tatuagens

É a desumanização …

 

“Porque gado a gente marca, tange, ferra, engorda e mata, mas com gente é diferente …”

Disparada, de Theo de Barros e Geraldo Vandré.

A tatuagem está aí, como um grito de liberdade para quem a imprime em si mesmo, ainda que carregue um forte componente anti-social. É um ato de vontade que algumas pessoas querem exercer, como se afirmassem o pleno direito a seu corpo, como se afirmassem que o corpo, emulando o sociólogo canadense Marshall McLuhan, é a mensagem. Nem sempre foi assim. Em Auschwitz, na Polônia, durante a Segunda Guerra Mundial, faziam-se tatuagens, mas não eram, longe disso, gritos de liberdade ou atos de vontade. As tatuagens, marcas ou números de identificação, eram aplicadas à força nos prisioneiros, principalmente judeus, cerca de 90%, e ciganos. Por lá, o corpo também era a mensagem, comunicando a quem quisesse entender que havia dor no mundo e, mais que dor, que se perdia o sentido da humanidade. Ao invés de congregar, significado do termo humanidade, a mensagem dos campos era a não-aceitação do outro (étnica, religiosa, política, econômica, sexual e socialmente). Numa palavra, a intolerância.

AI’ Nazi-tatuagens: Inscrições ou Injúrias no Corpo Humano”, de Célia Maria Antonacci Ramos, originalmente tese de doutorado em Comunicação e Semiótica, é um estudo sobre signos antiqüíssimos, a tatuagem. mas é principalmente um estudo sobre a intolerância – e sobre o poder. que acoberta os crimes praticados em nome da intolerância. A diferença básica entre as tatuagens de Auschwitz e as tatuagens contemporâneas é o voluntarismo destas – as pessoas querem, sujeitando-se ao incômodo das sessões e, dependendo de sua dimensão e visibilidade, a uma certa reprovação do grupo – e a obrigação daquelas – aos prisioneiros, constrangidos pela dor e pela marca, ninguém perguntava se queriam ou não ser tatuados. Também há uma diferença de conteúdo, pois apesar de as tatuagens modernas serem criativas e feéricas, as tatuagens dos campos de concentração, às vezes um simples número ou letras grosseiras, impressionam muito mais. No campo de concentração, a tatuagem era um grilhão e, quase sempre, o signo de uma morte anunciada.

A autora discute conceitos, vai aos fatos, ouve sobreviventes. Sobretudo, sem perder o foco da investigação, não deixa que, em nome da objetividade, ocultem-se os sentimentos de quem portou ou porta uma tatuagem – uma tatuagem concentracionária é, mesmo no caso daqueles que a retiraram, para toda a vida. Se não está gravada no braço, está gravada na mente. Como diz um dos entrevistados, a tatuagem representa pouco em si. mas a humanidade acabou para quem a porta. “Você não é mais um homem, você não é mais que um número e tudo mudou … É a desumanização”. Contra a barbárie, não se pode transigir. É preciso ficar alerta. Sempre!

Norma Tenenholz Grinberg Artista plástica e professora da ECNUSP

As Nazi-tatuagens – Inscrições ou injúrias no corpo humano?
Autora: Célia Maria Antonacci Ramos, apresentação de Norma Grinberg
Editora Perspectiva – 2006

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