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Gestos de contemporaneidade: Um recorte sobre a Cerâmica Ocidental na China

Gestos de contemporaneidade:
Um recorte sobre a Cerâmica Ocidental na China

Tratar de cerâmica, por princípio, já é lidar com contrastes: seja na oposição entre a maleabilidade da massa e a resistência alcançada na queima, seja por referências recorrentes ainda que no senso comum, de um fazer que resulta tanto em utilitários cotidianos quanto em esplêndidos exemplares de sofisticação plástica.
Quando se opta por falar de Cerâmica Chinesa, é normal que o título desperte no público uma expectativa em relação às grandes dinastias referenciais. No entanto, a proposta deste texto é justamente sensibilizar o olhar para a arte cerâmica produzida atualmente na China e em tantas outras partes do mundo.
O evento internacional da FLICAM, do qual tive a honra participar representando o Brasil, congrega mais de 200 artistas que por suas linguagens e respostas estéticas diferenciadas são reconhecidos internacionalmente como referenciais do fazer cerâmico contemporâneo.
Inicialmente, ao receber o convite para uma residência artística com uma fábrica de cerâmica à disposição, outros contrastes também se construíram devido às expectativas: o espaço utilizado para a nossa produção, além de não ser o mais “tecnologicamente contemporâneo” era marcado por uma produção cotidiana de cerâmica popular tradicional (com vasos e figuras mitológicas de animais e humanos que remetem a várias dinastias). Tal fato, além de demonstrar o orgulho histórico do povo chinês por sua produção cerâmica, revela também um aspecto que vale a pena ser destacado: na China a cerâmica é um evento nacional de projeção internacional desde antiguidade. Note-se, por exemplo, a dimensão tomada por produções como as terracotas dos Guerreiros da Dinastia Quin e a porcelana Ming, entre outras. Esmaltes apreciados até hoje, como o Celadom e o Sangue de boi, também têm sua origem na cultura chinesa. Não é à toa que em Inglês, a palavra adotada para designar a porcelana é china.
Aliás, pode-se dizer que a iniciativa da FLICAM é intrinsecamente uma noção de continuidade dessa valorização tão enraizada culturalmente. A instituição reúne pavilhões com diversas representações internacionais, e embora sua proposta esteja pautada na “contemporaneidade” – ou seja, no que há de mais atual em linguagem artística – a estrutura de organização preserva saberes e tradições ancestrais, como por exemplo, a organização hierarquizada em líderes, até mesmo neste evento em que os ocidentais certamente não teriam qualquer dificuldade em se organizar individualmente. Não é uma necessidade de liderança por incapacidade ou algo assim: trata-se de uma exigência cultural daquele país que todos se subdividam e encaminhem quaisquer necessidades por meio de líderes. Aliás, atendendo a este procedimento, até mesmo o convite foi feito por curadores que representassem regiões e reunissem os artistas. A artista argentina Vilma Villaverde arcou com a responsabilidade de convidar artistas sul-americanos – e a ela registro aqui mais uma vez meu agradecimento público. Registro ainda meu agradecimento a Monika Debus, que conheci meses antes, na Alemanha. A ela agradeço especialmente por sua atenção, incentivo e apoio à minha participação. E, é claro, um agradecimento ao grupo sul-americano do qual eu fiz parte. Uma equipe colaboradora e carinhosa com todos os integrantes.
Pode-se dizer até que o evento por si é uma manifestação da “globalização” contemporânea no que se refere a reunir nações e acelerar a comunicação por meio de contatos, diálogos e intercâmbios entre ceramistas do mundo todo – inclusive, porque aquela ocasião era também a do Encontro da IAC – International Academy of Ceramics. Porém, em nenhum momento se procurou impor qualquer tipo de “padrão”. Todos sabiam que foram convidados justamente para representar suas nações de maneira particular.
A proposta de entrelaçar tradição e contemporaneidade no oriente e no ocidente por meio da produção artística dos convidados consolidou-se na extrapolação dos domínios técnicos por parte de todos os profissionais envolvidos. O objetivo perseguido por todos foi a singularidade. A cerâmica se apresenta como cerâmica: com o aproveitamento artístico de seus potenciais de linguagem estética, inclusive ultrapassando limites de forno e espaço físico em instalações.
Em uma breve pesquisa pode-se perceber que as respostas estéticas eram em alguns casos uma inovação – se comparadas à trajetória do convidado e às produções artísticas de seu país, e em outros casos, era uma continuidade de uma linha artística em curso. Cada artista tinha total liberdade para criar, com as mesmas condições de espaço e material – neste caso, o mais impressionante é constatar como resultado a grande diversidade de expressões singulares.
O processo de criação se dava individualmente – no aspecto da produção – mas as atividades eram desenvolvidas no mesmo espaço da fábrica de cerâmica, em um trabalho que, em certa instância, é coletivo. Sobre isso vale destacar a experiência única e enriquecedora de compartilhar do momento de produção de mais de 200 artistas – singularidades do sentir, pensar e fazer – como num ciclo contínuo onde o início e o fim têm o mesmo ponto.
Nos museus da FLICAM, a cerâmica artística está muito bem representada em qualidade e quantidade (infelizmente, não em sua “totalidade” – almejada, porém, inalcançável).
Com certeza, para todos nós artistas convidados, a experiência de produzir uma obra num espaço estrangeiro foi fortemente impactante no aspecto humano, artístico e intelectual.
De modo geral, esse impacto vem do pleno uso do equipamento e do espaço. Artistas usaram tanto os perfis industrializados (antes: telhas, tijolos, pisos, etc.), quanto as massas cerâmicas disponíveis (da terracota à porcelana) em recortes, deformações, interferências, distribuições e agrupamentos originais no espaço expositivo disponível. Obviamente, a modelagem e a moldagem também foram exploradas em suas potências para trabalhos autorais, de maneira exemplar.
Para que possam ter ideia dos ambientes expositivos, é importante relatar que a maioria das alas dos museus tem forma de dragão – mais uma referência à tradição, representando força e poder. Este formato também remete aos antigos fornos de cerâmica chinesa. E é neste espaço que foram representados grupos originais de:.

Alemanha, Austrália, Canadá, Escandinávia, Espanha, Estados Unidos, França, GréciaHolanda, Itália, Leste europeu, México, Nova Zelância, América do Sul,
(Brasil, Bolívia, Chile, Argentina,Venezuela, Colômbia)

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